Uma publicação da Editora Brasil Energia

Gás importado ou gás do pré-sal?

Os desafios brasileiros para o aproveitamento do gás do pré-sal

Há pouco mais de 10 anos, citando o geólogo Hubbert [1], importantes figuras públicas garantiam que o petróleo do futuro seria escasso e caro. Por isso alegavam que o Brasil precisava preservar seus recursos petrolíferos para garantir a qualidade de vida das gerações futuras.

Essa assertiva desconsiderava um elemento chave do século XXI: a rápida inserção tecnológica. Em um mundo em que a informação caminha na “velocidade da luz”, a inovação agrega valor inimaginável a todos os processos, nos surpreendendo a cada dia.

Aliás, foi exatamente por isso que a Petrobras foi capaz de perfurar a área do pré-sal, propiciando que o Brasil se tornasse o 10º maior produtor de petróleo do mundo. Foram imensos os desafios tecnológicos superados em muito pouco tempo: o imageamento sísmico do pré-sal, as perfurações atravessando mais de 2 km de espessura de sal, a própria perfilagem para visualização do óleo no subsolo estão entre as novas tecnologias que viabilizaram o desenvolvimento desses recursos brasileiros.

Essa mesma história agora se repete em relação ao gás natural. Há uns três anos era comum encontrar especialistas da área afirmando que ainda haveria um longo caminho a percorrer para que as cargas de GNL chegassem aos seus destinos concorrendo, em preços, com o gás local e/ou seus combustíveis substitutos.

Pois bem, segundo a BP Statistical Review, em 2018, 45,7% do comércio inter-regional de gás natural se deu através da utilização da tecnologia do GNL, enquanto em 2015 esse número era de 32,5%. Hoje a importação de GNL por navios já pode ser complementada por transporte do energético por carretas e regaseificação local sobre skid, na porta do consumidor final.

Não há mais dúvidas sobre a velocidade da transformação em andamento que fará do GNL uma commodity desejada mundialmente. Desde o acidente nuclear de Fukushima, o Japão adotou o gás como uma importante fonte de energia por causa da flexibilidade e disponibilidade do GNL. Hoje a demanda da China, Coreia do Sul e Japão por GNL, associada ao interesse americano de fornecer GNL ao mundo, garantem escala para um futuro cada vez mais rentável do comércio de gás natural por navios. As consequências desses interesses serão mundiais.

Enquanto isso ocorre, no Brasil o governo federal lança o programa “Novo Mercado de Gás”, prometendo o choque da energia barata para o desenvolvimento industrial do país.

Importa dizer que a Lei do Gás, que trata do livre acesso de terceiros a instalações essenciais para o comércio de gás natural, é de 2009 e que a regulação infralegal da ANP foi finalizada em 2016. Dessa forma, com suporte governamental o país prossegue na direção de buscar novos atores para que a concorrência auxilie o choque desejado. Reconhece-se que o que não fizermos espontaneamente, faremos por pressão externa. A lógica do mercado é inexorável e, tanto quanto no pré-sal, a cada dia a tecnologia está viabilizando menores preços da commodity gás mundo afora. 

Aqui mesmo, ao longo do ano de 2019, cargas de GNL chegaram no “city gate” a menos de US$ 4,5/MM Btu, enquanto o preço do gás fornecido pela Petrobras às distribuidoras chegava no entorno de US$ 9,5/MM Btu sem impostos nos contratos Nova Política modalidade firme renegociada e o gás da Bolívia, também vendido pela Petrobras às distribuidoras, estava em torno de US$ 8,5/MM Btu, também sem imposto. 

No ar fica a pergunta: se o governo federal busca incansavelmente um gás mais barato e a Petrobras detém um gás mais caro, porque a estatal não importa a totalidade da capacidade de carga dos seus terminais, para reduzir o custo médio do gás e auxiliar o governo a cumprir suas promessas? Há restrições contratuais? Há empecilhos regulatórios não explicitados? Essas são questões cujas respostas precisam ser trazidas à sociedade o quanto antes, já que os preços do gás natural no Brasil estão claramente postos na página eletrônica do Ministério de Minas e Energia e as informações lá contidas não permitem essas conclusões. 

Não resta dúvida de que, em um país continental como o Brasil, a oferta de infraestrutura e energia barata é capaz de milagres, em termos do desenvolvimento que todos desejamos. E mercado para o gás natural não falta: a matriz energética brasileira precisa ampliar o despacho termoelétrico para garantir a inércia do sistema. Consumidores industriais estão à espera do gás acessível há anos. E o GNL a preços acessíveis está sobreofertado no Atlântico sul.  Não há forças de mercado capazes de conter o avanço da oferta de gás natural a preços acessíveis, ainda mais se ele tiver a garantia de fornecimento da maior potência tecnológica do planeta: os EUA!

Os primeiros sinais desse movimento já estão ocorrendo. Apoiados na figura do auto-importador de gás, foram autorizados dois terminais de GNL privados. Cada um alimentará uma central termoelétrica. A primeira, a central termelétrica de Barra dos Coqueiros, em Sergipe, será alimentada pelo terminal de GNL da Celse, já em operação. A segunda, composta pelas termelétricas GNA-I e GNA-II, será alimentada por terminal de GNL na região do Porto do Açu, cuja operação está programada para ter início em 2021. 

Além disso, há outros interesses privados na construção de terminais de GNL. E tudo indica que eles serão em número tão maior quanto mais caro for o gás do pré-sal. Só a título de exemplo, a  Engie Brasil Energia e a Golar Power estudam parceria para viabilizar um terminal de regaseificação no porto de São Francisco do Sul (SC) próximo a Joinville; o grupo Enercom já anunciou o interesse em quatro térmicas no Nordeste, a serem alimentadas através de terminais de GNL. Os governadores saúdam esses interesses, disponibilizando seus melhores esforços em prol da atração desses investimentos. O governo federal se comprometeu com o gás barato. Não se vislumbra oposição política possível a esse movimento.

Com a âncora termelétrica garantindo a viabilidade desses novos terminais de regaseificação, a figura do consumidor livre, também já definida em lei, garantirá a opção do consumidor industrial pelo gás a preços mais acessíveis. Não haverá como forçar esse consumidor a comprar mais caro um produto que lhe pode ser disponibilizado de forma mais acessível.

Pois bem, é nesse cenário que se discute o aproveitamento do gás do pré-sal e se situam os projetos dos gasodutos que interligam o pré-sal à costa, a venda das unidades de processamento de gás natural da Petrobras, a utilização dos terminais de GNL da Petrobras, a reinjeção do gás do pré-sal, dentre outros assuntos.

Estudos da FGV Energia indicam que a produção de gás no Brasil crescerá exponencialmente na próxima década e que, mesmo que as petroleiras optem pela reinjeção de gás natural do pré-sal (hoje a reinjeção de gás no Brasil está da ordem de 35% do gás produzido no Brasil), essa reinjeção se tornará um desafio cada vez maior para elas.  Mas é provável que, quando isso ocorra e elas tenham que colocar gás no mercado, já tenhamos alguns terminais de GNL com fornecimento, a preços acessíveis, para consumidores térmicos e industriais.

É importante lembrar que mesmo o fornecimento de gás barato às térmicas do Programa Prioritário Termelétrico – PPT (em torno de US$ 4,5/MM Btu), já não é mais um fardo para a Petrobras, dado a possibilidade de importação de GNL.

Por todo o exposto, resta uma pergunta que não quer calar: como se comportará a Petrobras em relação ao aumento da produção de gás do pré-sal e sua colocação no mercado? Sua opção será a de segurar os preços do energético, para suportar o preço da construção dos dutos e afins ou sua opção será a de enfrentar essa realidade e, da mesma forma que fez com a produção de petróleo do pré-sal, perseguir, através da inserção tecnológica, a redução desses custos?

Se houver real interesse da estatal no mercado de gás natural brasileiro, considerando as oportunidades atuais e as perspectivas futuras de oferta de GNL, a recomendação para a empresa só pode ser uma: corra Lola, corra! [2]

 

 1 A Teoria de que a produção individual ou mundial de petróleo atingiria um pico para depois declinar foi decorrente de um trabalho realizado por M. K. Hubbert, geólogo da Shell na década de 1950.

2 Referência ao filme Corra, Lola, corra! Em que a personagem principal Lola corre através das ruas de Berlim, sendo apresentados três possíveis finais da louca corrida de Lola para salvar o namorado.

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